Senhora

Esta noite, sonhei contigo

 

Esta noite, sonhei contigo.
E O Amor da Alma, livre a vagar pelo Éter,
Dói, como dói a vida,
Como aqui o experimentei, há tempos,
Fresco, ainda, morto-vivo por tuas palavras,
Perdido e de perdição, vazio de todas as coisas,
Transbordando angústia, como líquido que corrói,
Da forma com que, assim, infinitamente,
Em mim perpetua-se O Amor.

À minha revelia, e por meu fervente desejo,
Esta noite, sonhei contigo.
E, livre das amarras cuidadosamente asseguradas durante as horas despertas,
Acolhida pela liberdade, que encarcera todo o medo,
Permiti, como nunca antes o fizera,
Aos meus lábios e à minha voz,
Que a ti destinassem as palavras proibidas,
Tão desesperadamente quanto ainda ardem:
Eu te amo.
Desde sempre e por todos os minutos deste agora e do amanhã;
Por todos os dias que afoguei e por aqueles que insistem em nascer, ainda assim,

Eu te amo.
E, esta noite, sonhei contigo.
Mas, ai de mim, eu minto!
Ainda que sem intenção, admitidamente o faço;
Não era você, Aquele.
Era figura criada em mente, em meu coração, meu sonho.
Ali, recebi de ti as palavras, em retorno,
Aquelas que nunca consegui materializar em voz, som ou lágrimas,
E que, em ti, nunca suspiraram,
Mesmo que por um instante.

Esta noite, sonhei contigo,
E você, ali um reflexo de mim,
Sonho sem máculas do despertar,
Amou-me, puramente, como eu a ti.
Despertei e senti a lancetada cruel,
A dor do Amor Solitário,
Tão vívida e recente quanto a das horas imateriais,
Figura já simbólica de meus dias na carne.
Morri, como todos os dias morro;
Hoje, porém, afogo-me em águas diversas,
Menos turvas, ainda que gélidas, sempre;
Esta noite, derramei sobre ti as palavras que por tantas vidas me pesaram e me elevaram.

Esta noite, sonhei contigo
E pude, finalmente, confessar-te.

Eu te amo.