Antonio Olivio

Mil anos de solidão

 

Quem mata o poeta

Tem sangue nas mãos

Sangue azul de tinta

Sangue de escrita

Escorrendo pro céu 

Quem mata o poeta

Assassina o verso

Interrompe o destino

Enlouquece a razão 

Mata os \"Severinos\"

Encontra o \"José \"

Da sua perdição 

Se morre o poeta 

O \"mar português\" 

Já não tem mais perigos

E a alma fica pequena

Morre Camões 

Morre Pessoa

E milhões de pessoas

E as que nasceriam

Também morreriam

Meta a faca no poeta

E um monte de preces

Jorraria no escuro

Inúteis orações 

Que não teriam ouvidos

Atire no poeta 

E Mate os pássaros

Que voam nos ceus

E mate  as flores

Que Iluminam jardins

Acabe com o néctar 

Que vinha do folhetim

O poeta poetinha

Morreria no túmulo

Não haveria de ter

\"Operario\" que o defendesse 

E o amor seria mortal

\" Posto que não seria chama\" 

Se Morre o poeta

\'Romeu e Julieta\"

Morreriam de causas naturais

A morte do poeta

É a morte da morte

Antes da vida

Morte ao inverso

Do livre protesto

Insesto de rimas irmãs 

Que gestariam 

Os versos iguais

Para o construir o tão sonhado

Mundo cinza 

Corta a carne do poeta

E mate a letra 

Tira a vida

Da beleza 

Interrompa o sonho do menino

Que rabisca o arco-íris 

Assassine o poeta

Tira a pena de sua mão 

E terás pena de bandido

Virá sobre ti a sentença 

Que por livrar o mundo da esperança: 

Mil anos de solidão 

 

Antonio Olívio