Letícia Alves

À primavera que rumoreja dentro de mim

Da primavera para o verão. O inverno acabou e eu vejo-me adiante.

O tempo e eu estamos livres. Ouço jazz e sinto as pupilas e todos

os meus batimentos passeiam pelas melodias do desabrochar das

flores; enquanto pássaros me dormem e me encantam no cantar

de tudo aquilo que está acontecendo. Isso é repleta felicidade.

 

Eu sei que o que sei não está só sobre mim, mas sob o que escolho

de mim. E aí a queda é muito maior. Um tambor e um coração.

Também sei que a beleza é desordenada quando quer – é jazz; é a 

vida encontrando-se, não já encontrada. Vivemos de improvisos

fixados. E a poesia não é sintomia de pensamento coerente e equilibrado,

é sentido, é loucura catártica e irreverentemente perfeita expressa.

É a conjuntura do organismo que vibra, que pulsa, apesar de mim,

mas tomo-a para mim. Afinal, ela resume-se no eu que a contempla,

logo antes dela acabar e de recomeçar na forma de outro organismo. 

 

A primavera rumoreja como eu, quando acordo de um sono 

profundo e desperto sem me sobressaltar, e, por instantes, não sei 

nada e nem anseio saber, apenas sei que sou. Horas raras, divinas e 

inconscientemente cuidadas. Nada além, nada distante. Tudo através. 

Aquilo que perfura aquém do corpo e além do saber, eu saldo e retenho.

 

Assimilo, ao voltar para casa, todo o vento com a lucidez enérgica de um

beija-flor veloz e com a fragilidade de uma criança que canta sobre libélulas.

A amabilidade cria-me as asas; abrange o Universo ao me desfazer; cria

para mim a estrela durante o dia acesso, permeia o jardim de prelúdios

de doçuras, que desfazem os limites que a realidade insiste em querer

me fazer esquecer. Com a entrada da primavera, não deixo ficar

despedaçada ou sequer pendurada a mera reminiscência do desejo das

pequenas coisas tolas, pois o inverno, quando se foi, levou os flocos 

descoloridos de neve e a primavera trouxe-me as pétalas. Estou perfurada 

por pétalas. Eu vou deixá-las cair. Elas irão de qualquer forma. Mas eu escolho, 

uma vez mais, cair com liberdade, avultando a minha subida nessa temporada, 

com a natureza que professa acreditar na vida, caso eu esqueça.