Da primavera para o verão. O inverno acabou e eu vejo-me adiante.
O tempo e eu estamos livres. Ouço jazz e sinto as pupilas e todos
os meus batimentos passeiam pelas melodias do desabrochar das
flores; enquanto pássaros me dormem e me encantam no cantar
de tudo aquilo que está acontecendo. Isso é repleta felicidade.
Eu sei que o que sei não está só sobre mim, mas sob o que escolho
de mim. E aí a queda é muito maior. Um tambor e um coração.
Também sei que a beleza é desordenada quando quer – é jazz; é a
vida encontrando-se, não já encontrada. Vivemos de improvisos
fixados. E a poesia não é sintomia de pensamento coerente e equilibrado,
é sentido, é loucura catártica e irreverentemente perfeita expressa.
É a conjuntura do organismo que vibra, que pulsa, apesar de mim,
mas tomo-a para mim. Afinal, ela resume-se no eu que a contempla,
logo antes dela acabar e de recomeçar na forma de outro organismo.
A primavera rumoreja como eu, quando acordo de um sono
profundo e desperto sem me sobressaltar, e, por instantes, não sei
nada e nem anseio saber, apenas sei que sou. Horas raras, divinas e
inconscientemente cuidadas. Nada além, nada distante. Tudo através.
Aquilo que perfura aquém do corpo e além do saber, eu saldo e retenho.
Assimilo, ao voltar para casa, todo o vento com a lucidez enérgica de um
beija-flor veloz e com a fragilidade de uma criança que canta sobre libélulas.
A amabilidade cria-me as asas; abrange o Universo ao me desfazer; cria
para mim a estrela durante o dia acesso, permeia o jardim de prelúdios
de doçuras, que desfazem os limites que a realidade insiste em querer
me fazer esquecer. Com a entrada da primavera, não deixo ficar
despedaçada ou sequer pendurada a mera reminiscência do desejo das
pequenas coisas tolas, pois o inverno, quando se foi, levou os flocos
descoloridos de neve e a primavera trouxe-me as pétalas. Estou perfurada
por pétalas. Eu vou deixá-las cair. Elas irão de qualquer forma. Mas eu escolho,
uma vez mais, cair com liberdade, avultando a minha subida nessa temporada,
com a natureza que professa acreditar na vida, caso eu esqueça.