Ontem escrevi sobre a saudade, sem saber que já me preparava para o medo.
As despedidas seguram as mãos quentes, sem reconhecer formalidades.
Busco o que se guarda numa caixa, sabendo que só o que deseja ser lembrado é guardado.
O que se estampa nas minhas chegadas não avisa, apenas está lá – impassível, inevitável, imóvel.
Há tantos fins que se evitam, mas a memória guarda, cada vez mais cheia, cada vez mais cara.
Recordo que são apenas memórias, que talvez me recordem também.
A tinta do presente se espalha sobre mim, densa, viva – só o espelho das manhãs as reconhece.
Os dias oscilam entre sol e chuva, entre eles se estende uma linha fina, quase invisível.
O passado tem gosto e se demora na minha língua: um sabor de mel e de limão.
A cada dia, algo cresce e algo se esvai – sem nome, sem rosto, apenas vai, sem despedida.
Meu café esfria enquanto recolho dores esquecidas no varal.
Há risos mantidos, há lágrimas encobertas, há perfumes que perseguem as esquinas que passo, como quem não busca nada.
As saudades, engolidas à força, ainda reviram meu estômago, mesmo o ar sendo mais fresco.
Raivas mudas, solidões acompanhadas, cuidados disfarçados – me cumprimentam e amanhecem do meu lado.
Os menores conflitos escondem-se dentro dos maiores, e o tempo observa, prestando atenção.
A confusão já não me alcança, mas os medos... esses, sabem se esconder onde a paz e a guerra se encontram.