Anna Gonçalves

Sopro de outros dias

Não é só o verso que chega,
é o silêncio antes dele 
um tremor no meio da noite,
um sentimento que o vento desenreda.

São as fases da lua
escondidas no papel,
rascunhos de um tempo
que não quis ser tão fiel.

E quando a palavra insiste,
quando ela corta e não lava,
é o corpo que aprende
escrever é uma faca
que serena a alma inquieta,
mas primeiro a engrava.

São dias de escombro,
restos de versos na gaveta,
horas que doem
como pontas de lápis
quebradas no meio da página.

Mas eis que a madrugada
despeja seu suor de estrelas,
e a mão, antes surda,
ouve o rumor do mundo.
Do meu mundo interno e externo.

Então a palavra vem,
não como um milagre,
mas como um operário
que sabe o ofício da dor.

Ela corta, ela serra,
ela junta os cacos do tempo
até que a linha do poema
seja um fio de sangue,
um trilho,
um fio de esperança.

Porque escrever é isto
deixar que a vida
essa velha desordeira 
arrume seus cacos
no verso do seu próprio livro.