Ludmilla Fernandes

Pai ausente

Quantos pais existem por nome,
Mas que somem sem deixar calor, valor, amor?
Filhos crescem sem ter colo,
Aprendendo a lidar com a dor.

Filhos crescem sem abraços,
Sem histórias pra contar,
Com memórias de ausências
Que ninguém pode apagar.

O meu, chegava e partia, brisa inquieta,
Montava bicicletas, desmontava promessas.
Soprava ao vento palavras vazias,
E eu, sem querer, guardava agonias.

Ele gritava, se zangava, deixava sua herança:
Um coração preso, cheio de desconfiança.

Me lembro dos \"nãos\" que calei,
Das mãos vazias que recuei,
Do dia que dois reais valeram cem,
E das promessas que nunca cumpriu também.

Do dia que eu quis um presente,
Mas o ano novo era mais urgente.
Fui esquecida, tão pequena,
Odiei o Réveillon sem pena.

Cresci contando frustrações,
Somando vazios no peito,
Aprendendo que amor, pra alguns,
É o que sobra depois do desprezo.

Então ele voltou, tarde demais,
com histórias de um novo coração.
Mas as feridas cicatrizaram tortas,
E as palavras não mudaram a solidão.

Ele vai longe pra ver quem escolheu,
Mas nunca teve olhos pra me enxergar.
E quando reclamo do tempo perdido,
Sou eu quem não sei amar.

Quando me canso de ser humilhada,
Fico em casa, quietinha, sem abrir o portão.
Ele só vem me procurar
Pra dizer que eu não tenho Deus no coração…

Mas se eu ligar, pedindo um favor,
Ele inventa desculpas, e finge dor.
Atenção ele tem, mas não para mim.
Para mim, só resta o eterno \"não\" sem fim.

E o mundo ainda diz que eu sou a errada,
Que eu me afastei, fui mal-educada.
Mas como amar quem nunca ficou?
Como sentir quem nunca me olhou?

Mas sigo em frente, de pé, sem fraquejar,
Pois sem colo, sem guias, aprendi a andar.
Se o amor dele sempre foi ausente,
o meu, por mim mesma, será suficiente.