10 anos
Eu me lembro dessa criança,
Conturbada, confusa,
Sozinha, abandonada.
Ele só queria ter alguém pra confiar.
Brincava sem brinquedos,
Chinelos eram seus carros.
Foi apresentado ao vazio,
À dor de não ser o que queria,
De não ter o que todos tinham.
Sua beleza era simples,
Amava desenhos.
15 anos
Esse ainda é recente.
Ainda carregava os mesmos problemas,
Lidava com a rejeição ignorando.
Aprendeu a mentir,
A ignorar seus problemas.
Colocava-os lá no fundo e seguia vivendo.
Ainda não tinha sonhos,
Só queria ser amado,
Só queria ser normal.
Ele se sentia normal,
O normal do seu mundo,
Das suas ilusões,
Das suas mentiras,
Das suas histórias.
Tinha um medo forte,
Uma revolta iminente,
Uma injúria contra o mundo.
18 anos
Esse aprendeu que tinha amigos,
Que talvez nem todos te odeiam.
Aprendeu que o mundo que lhe era imposto
Estava errado.
Aprendeu a criticar instituições,
Tudo e todos.
Aprendeu que era ok ser rejeitado,
E que talvez, de fato,
Não seria normal.
Ainda não sabe amar.
Esse queria entender algo,
Algo que lhe era negado.
E isso ele fez,
Sempre atrás de suas metas,
Sempre atrás de aprender,
De desvendar os mistérios mais profundos do mundo,
De tentar mudar algo.
Esse cara aprendeu a sonhar,
Mas ainda não sabe fazer.
20 anos
Esse lidou com a dor,
Com a rejeição mais uma vez,
E entendeu que tem que se apegar
A alguém que vá te ajudar,
Que esteja com você.
E estava errado.
Pessoas possuem seus interesses,
Suas vontades,
Que estão além de você,
Além do seu sonho,
Além de tudo.
Entendeu um pouco do mundo
E segue sonhando.
Quer mudar.
Esse quer morrer de verdade,
Matar seu passado
E se moldar:
Um ser humano incrível,
Cada dia melhor,
Cada dia mais forte.
Esculpido a machado,
Tenta achar no vazio
Um caminho pro fim.
Aguarda que algo caia do céu,
Mas ele quer mudar,
Quer alguém,
Quer ter seu nome.
Quer morrer nesse momento
Para ser alguém novo.