Letícia Alves

Eu Existo: da Conexão das Nuvens ao Chão da Terra Molhada

Extraordinária solitude do elogio da nuvem para a qual
aceno em reverência. Vejo a vida sonhar todo o meu
amor com ela, sem se precipitar, mas revelando-se
como uma serenata: é intenso e é simples. Assim
também como o brilho da lua ou como o luzir dos
vagalumes. Tudo que é sutil me causa profundidade.

Musgos em plena floração me lembram a vida honesta
e aberta. Sinto uma bondade natural do céu, a indiferença
dos outros filhos não me desequilibra. Apenas guio os meus
ramos. Os meus cavalos correm sem desespero e eu vejo a Lua.

Contruo uma casa de pedra que é tudo que preciso.
Onde sem teto, posso ver as estrelas e desejar ir para o meu lar.
E vejo. Acima do sol. Por trás das nuvens. Em posição elevada
à Lua. O desejo me permite respirar resquícios dele mais perto,
como se estivesse mais perto do que nunca. Imagino uma corrida
nos dois céus: o noturno e o diurno. Não importa perguntar-me o
porquê estou aqui, mas me abraçar enquanto respiro intensamente
deitada sob este chão que me proporciona a visão do sol, das
nuvens, da lua e da chuva. Tudo isto enquanto vivo e espero em
paralelo – um prisma de elos. Já estive aqui antes mas tudo está
tão bom agora: correndo à procura de mais coloridas borboletas.

— a lua usa o brilho alheio e, só então, sobe ao céu, sobe e caminha entre estrelas, ascendendo para acender, carregando o melhor que lhe é oferecido. Cintilante ela vaga dentro do seu próprio caminho. E a lua está em mim.

Fico alegre por admirar o que admiro e ser assim – observadora
e admiradora das coisas que formam mais coisas dentro de
todas as pessoas, e e perceber numa rápida consciência tudo
que me forma; tudo que eu adoro; tudo que toca no céus, tudo
o que revolta o mar, tudo o que abala a Terra. Tudo que é poesia.
Mesmo que eu não veja. A conexão é para àqueles que enxergam
à sua própria finitude em comparação com o que é infinito.

O Maior é abrigo. Por isso eu embarco nessa solitude que fala muito, que embarca em mim, como feriado de dia santo: uma manhã sem compromissos. O tempo vira para que eu aguente. Isso é uma outra faceta, mais difícil, do Amor. A beleza da noite não depende da noite sozinha. Os vagalumes guiam o seu caminho. Eu existo, eu resisto, eu repito, eu declino, eu rimo, eu reintero, eu espero, eu rezo... Eu e todos os meus restos... Eu existo. Eu existo. Eu existo.