Hoje amanheceu um dia triste,
Uma solitária nuvem assiste a essa tristeza.
Ela não se move, não se remodela,
Paira na abóbada tão azul, com mau presságio.
Não sinto brisa sequer,
Nem folhas das árvores a sentem.
De novo procuro a nuvem– já se esvaneceu.
E vêm-me lembranças tão antigas, em sequência, chegam até mim...
Refugio-me no celular, Vejo uma mensagem de WhatsApp:
\"Bom dia, bom dia.\" \"Não tenha medo povo de Sião, não desanime, tenha coragem\"...
Depois do longo texto bíblico:
\"Uma abençoada terça-feira.\"
Lembro a invasão de Gaza. O climatizador se queimou e suores porejam,
Desejo um banho–a caixa d\'água me frustra.
E vem à tarde, a fiação elétrica na esquina está solitária,
Não contem pombos.
Um pássaro sequer visitou o meu jardim, Nem mesmo os periquitos que em revoada costumam rasgar o céu com sua algazarra, Hoje a revoada falhou na sua trajetória. Há uma solidão no ar.
Um casal de araras grasnam —antes havia um terceiro. A tarde está muda,
Exceto pelo indefectivel arrulho de um pombo do vizinho.
A umidade do ar e o calor gritam.
Sinto um peso na alma,
Uma sensação de eternidade na prisão de leis cósmicas.
Não ouso transformar em soneto o que me oprime.
Uma triteza sem resgate.
Sinto lágrimas.
\"Abençoada terça-feira?\"
Tangará da Serra, 30/04/2024