Maximiliano Skol

\"UMA ABENÇOADA TERÇA-FEIRA\"

Hoje amanheceu um dia triste,
Uma solitária nuvem assiste a essa tristeza.
Ela não se move, não se remodela,
Paira na abóbada tão azul, com mau presságio.
Não sinto brisa sequer,
Nem folhas das árvores a sentem.
De novo procuro a nuvem– já se esvaneceu.
E vêm-me lembranças tão antigas,    em sequência, chegam até mim...
Refugio-me no celular,                       
Vejo uma mensagem de WhatsApp:
\"Bom dia, bom dia.\"                             
\"Não tenha medo  povo de Sião,        não desanime, tenha coragem\"... 
Depois do longo texto bíblico:
\"Uma abençoada terça-feira.\"
Lembro a invasão de Gaza.                     
O climatizador se queimou                    e suores porejam,
Desejo um banho–a caixa d\'água me frustra.
E vem à tarde, a fiação elétrica           
na esquina  está solitária,
Não contem pombos. 
Um pássaro sequer visitou
o meu jardim,                                                      Nem mesmo os periquitos que em revoada costumam rasgar o céu com sua algazarra,                                        Hoje a revoada falhou na sua trajetória.                                                    Há uma solidão no ar.
Um casal de araras grasnam                    —
antes havia um terceiro.                         A tarde está muda,
Exceto pelo indefectivel arrulho de um pombo do vizinho.
A umidade do ar e o calor gritam.
Sinto um peso na alma,
Uma sensação de eternidade                na prisão de leis cósmicas.
Não ouso transformar em soneto           
o que me oprime.
Uma triteza sem resgate.
Sinto  lágrimas.

\"Abençoada terça-feira?\"

Tangará da Serra, 30/04/2024