MESA DE BAR , 2026
Não me tirem daqui, quero pressentir-me.
Quero ficar sozinho com meu livre pensar.
Quero somente ver que o dia é meu
E sentir-me, aqui, neste lugar.
Daqui eu vejo o passado,
As lembranças chorosas que se me apegam,
Os momentos dos quais nem mais me lembro,
Mas guardados são no meu viver.
Ou tidos como sonhos dormidos.
Choro a perda de mim mesmo
com tantos sonhos possíveis.
Mas quero permanecer já como estou,
Uníssono com o Cosmos e a vida,
<span;>Que ainda sinto extrema. Mas é vida.
Misterioso é saber-se vivo...
Misterioso e essa realidade tão fugaz...
Conceber-me criatura tão delicada
Perante esse esplendor universal,
De luz, de estrelas, cores, alegria e dores.
Afeição, amor, ódio, mágoa, medo
e coragem.
Essa abóbada celeste me suaviza, quando de dia
E o firmamento a repõe durante a noite,
Ele, firmamento, longínquo e portentoso, é mistério.
Tão ínfimo me sinto qual uma formiguinha
E perturbado perante a mudez de tudo isso.
Quanto de grito, quanto de valor tenho?
Quanto de apelo por socorro me é lícito,
Se minha voz eu solto–voz num deserto...
Talvez num vácuo metafísico e quântico,
No vácuo espiritual da pós-vida,
Sem o direito a ter pretensão de ser ouvido de retorno em eco...
Sinto que tenho alma e que possa ser uma ilusão, mas quero ter essa alma.
Quero o quê? Nem sei o que devo querer
Se do mistério sou vítima, descrente e apavorado.
Essa existência me limita e me apavora...
Esse meu sentir-me enfermo...
Meu silêncio é tudo que tenho...
O ser passageiro esquecido, já, é tudo o que sou.
Mas persisto — assim me sinto.
E a tortura de ser é minha – que é a vida.
E tão fugaz, tão presente e traiçoeira.
Conforta-me lembranças tão banais,
Conforta-me lembrar o meu pastor-alemão,
Alegra-me ouvir no áudio o meu Ring Neck.
Pesaroso me sinto quando latidos e cantar de pássaros eu ouço,
Porque me lembram o meu Ring Neck
E o meu pastor-alemão.
Lembro, de outro modo, as mulheres, as alegrias, as farras.
Os romances frustrados em amores ilusórios ou platônicos,
As dolorosas despedidas, as saudades tidas eternas,
As noitadas em exageros de embriaguez,
As ressacas merecidas, ou aquelas sofridas por virem de prévia inutilidade sentimental.
Lembro amigos que também sofreram e já se foram.
Não quero o sofrimento deles...
Recordo choroso a minha mãe – aquela santa mulher,
Anjo de Deus a me trazer à luz.
Sozinho eu quero ser, aqui, neste lugar.
A loucura humana me atormenta.
Entretem-se a si próprios gozando,
ou depreciando, em guerra, suas vidas.
Mas longe de mim.
Quantas inúmeras vezes estive
no limbo!
Só em saber que estou vivo é-me entretenimento.
Eu que me julgava jovem e simpático,
no entanto, pelo espelho, ou no retrato me consumo.
E vejo que a autoestima é sempre falsa, contudo, seja dona da coragem...
E julgo-me perdido, sem propósito, sem magia, sem desejos.
Restam-me alguns remorsos.
Morto estou no meu espírito: a minha psique seca...
Incrédulo persisto e temeroso.
Não me tirem daqui — desta mesa de bar.
Deste copo onde o gelo já derreteue ainda assim me sustenta.