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Maximiliano Skol

NÃO ME TIREM DAQUI, DESTE LUGAR

Não me tirem daqui, quero  pressentir-me.                        Quero ficar sozinho  com meu livre pensar.
Quero somente ver que o dia é meu
E sentir-me, aqui, neste lugar.
Daqui eu vejo o passado,
As lembranças chorosas que se me apegam,
Os momentos dos quais nem mais me lembro,
Mas guardados são no meu viver,
ou tidos como sonhos dormidos.
Choro a perda de mim mesmo
com tantos sonhos possíveis.
Mas quero permanecer já como estou,
Unissono  com o Cosmos e a vida,
Que ainda sinto extrema.  Mas é vida.
Misterioso é saber-se vivo...
Misterioso e essa realidade tão fugaz...
Conceber-me criatura tão delicada
Perante esse esplendor universal
De luz, de estrelas,  cores, alegria e dores.
Afeição, amor, ódio, mágoa, medo
e coragem.
Essa abóbada celeste me suaviza, quando de dia
E o firmamento a repõe durante a noite,
Ele, longínquo e portentoso, é mistério.
Tão ínfimo me sinto qual uma formiguinha
E perturbado perante a mudez de tudo isso.
Quanto de grito, quanto de valor tenho?
Quanto de apelo por socorro me é lícito
Se minha voz eu solto, voz num deserto...
Talvez num vácuo metafísico e quântico
No vácuo espiritual da pós-vida,
Sem o direito a ter pretensão de ser ouvido
de retorno em eco...
Pior é que a hegemonia unipolar digital
onisciente e onipresente não me fará livre.

Sinto que tenho alma e que possa ser uma ilusão, mas quero ter essa alma.
Quero o quê? Nem sei o que devo querer
Se do mistério sou vítima, descrente e apavorado.
Essa existência me limita e me apavora.
Esse meu sentir-me enfermo...
Meu silêncio é tudo que tenho...

Sou  da \"geração silenciosa.\"
O ser passageiro  esquecido, desde já é tudo o que sou.
Mas persisto dentre os \"perennials,\" assim me sinto.
E a tortura de ser é minha–que é a vida.
E tão fugaz, tão presente e traiçoeira.
Conforta-me lembranças tão banais,
Conforta-me lembrar o meu Pastor-alemão,
Alegra-me ouvir no áudio o meu Ring Neck,
Pesaroso me sinto quando latidos e cantar de pássaros eu ouço,
Porque me lembram o meu Ring Neck
E o meu Pastor-alemão.
Lembro, de outro modo,  as mulheres, as alegrias, as farras.
Os romances frustrados em amores ilusórios ou platônicos,
As dolorosas despedidas, as saudades tidas eternas,
As noitadas em exageros de embriaguez,
As ressacas  merecidas, ou aquelas sofridas  por virem de prévia inutilidade sentimental.
Lembro amigos que também sofreram e já se foram.
Não quero o sofrimento deles... 
Recordo choroso a minha mãe – aquela santa mulher... Anjo de Deus a me trazer à luz. 

Sozinho eu quero ser, aqui, neste lugar.
A loucura humana me atormenta.
Entretem-se a si próprios gozando,
ou depreciando, em guerra, suas vidas.
Mas longe de mim.

Quantas inúmeras vezes estive
no limbo!
Só em saber que estou vivo
é-me entretenimento.
Esse meu pensar é que a vida!!
Esse meu diferencial é que me faz senti-la!!
Só se sente a vida quando se pensa vivo,
ou preconiza a morte.
Eu que me julgava jovem e simpático,
no entanto, pelo espelho,
ou no retrato me consumo.
E vejo que  a autoestima é sempre
falsa,
contudo, seja dona da coragem...
E julgo-me perdido,
sem propósito, sem magia, sem desejos.
Restam-me alguns remorsos.
Morto estou no meu espirito:
a minha psique seca...
Incrédulo persisto e temeroso.
Não me tirem daqui–deste lugar.
Desta mesa de bar.
Um revés em mim vive...

Tangará da Serra,12/2023

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