Era recíproco o amor dos louva-a-deus Manteodório e Mantearinha, em idade de acasalamento, no reino de Animalia. No entanto, temendo a sina de ser ceado em plena lua de mel, o louva-a-deus cerceou o caminho da jovenzinha mariposa, Lepidopterícia, na saída da sua aula de dança matinal. Posudo, esguio e convincente, conquistou-a de supetão, uma imago, recém-saída da fase crisálida. Abriu mão do sentimento que nutria por Mantearinha, desprezando-a. Afeiçoou-se por Lepidopterícia, namorou-a e desposou-a, meses depois. Naquela noite nupcial, em algum canto, Mantearinha não se tornara viúva, nem assassina. Era uma época muito fria, daquela de empedrar orvalho. Sequioso e predestinado, Manteodório exauriu-se sobre o corpinho colorido de Lepidopterícia, cobertos por uma e meia folhas secas de abacateiro. Não havia sobrado um tostão de calor naquele corpo verde (e pálido). A mariposinha então voou até o poste mais próximo e ficou “dando vorta em vorta da lâmpida pra si isquentá”, como previra Adoniran, o Barbosa. Lá de baixo, Manteodório parecia rezar pelo calor de Lepidopterícia, de mãos postas e olhos arregalados e imóveis. E o recém-casado Manteodório morreu assim, ali, congelado. A mariposinha pouco se importou, porque lhe havia calor no poste para as noites frias. Dizem que no céu da bicharada de Animália, há inúmeros louva-a-deus felizes e com as cabeças comidas. No inferno de Animália, porém, existe apenas Manteodório, inteiro, mas ainda de olhos esbugalhados e eternamente triste. No seu canto, Mantearinha, que agora é viúva de outro, muito lastimou sua perda e questionou: por que hesitar em perder a cabeça por alguém que se ama?
– essa prosa poética foi publicada em meu blog pessoal (https://antoniobocadelama.blogspot.com/) em 23/07/23 –