Roberio Motta

Doutor toma conta de mim!

Não quero ver só seu rosto! 

Distante e sem cor

Quero ver como antes

Olho a olho - cor a cor

 

Não quero de longe

só escutar sua voz!

Quero aquele abraço amigo

De perto e paciente monge.

 

Quero conhecer quem cuida de mim,

quem cuida dos meus e de nós.

Sentar e conversar

No seu consultório a sós.

 

Doutor se achegue

e aperte a minha suada mão.

Quero ver o seu sorriso

Tua escrita feita à mão.

 

Sei que seu dia é corrido

e fazes Medicina por

paixão.

Volta a trazer sorrisos

Alegria e compaixão.

 

Por favor não vá embora 

atrás desta tela 

que não sente a minha alma

e nem ausculta meu coração.

 

Doutor não diga não à Medicina,

não se afaste de mim não.

Eu que vim de tão longe

E esperei tanto para apertar a sua mão.

E você também ao longe 

atrás do visor e sem emoção.



Estás cada vez mais distante

e em teu lugar

a voz melan-cólica do computador da ilusão.

 

Como podes me ajudar

se minhas lágrimas

por vezes tu não mais vês, 

nem minha história

e nem minha vida 

não conheces e nem quer saber.

 

Esqueceu de ver a ferida 

bem perto da solidão

e tudo passou despercebido no traçado do coração.

 

Não viu a minha dor,

meu semblante e torpor

Nem minha mão tremendo

Meu flapping e meu suor.

 

Foi tudo tão rápido

Sem emoção e sem dó

E quando percebi

cheguei e sai só.

 

E carrego no meu peito

A mesma dor

e na garganta o mesmo nó.

 

E tu cada vez mais distante

e a Medicina que chora

ao te perder

vendo a pancada da porta que se fecha

sem tu mesmo perceber.

 

Doutor, como podes me ajudar ?

Refazer o refazendo, 

construir o destruído, 

escutar meu choro

e não só ruídos perdidos.


Ver o meu e o teu todo

e não só minha face,

conversar e me escutar,

ver meu baço e me palpar, 

ver meus pés e ‘tocar’

o cacifo que teima

em não desaparecer até tu voltar.

 

Volta doutor e toma conta de mim.

Tenho histórias e filhos, 

tenho vindas e vidas, 

tenho fé e medidas, 

tenho estômago que queima 

e apêndice que se esconde 

como tu que hoje some

sem nome e sem mim.

 

Veja meus olhos dourados 

teimando por um diagnóstico 

não vá nos contos malvados das empresas sem dó

que te afastam da Medicina,

de mim e de ti

e assim morremos sós!

 

Ah meu coração ainda pulsa

e sopra seu sistólico, quase melancólico,

de ritmo sem rito,

só lamento de um sopro

e junto do sufoco com uma B3 trá...!

 

Traz de volta a Medicina 

e abra a janela do coração. 

Abre a porta sem demora

onde mora a hipótese

E traz a luz na escuridão.

 

Eu te suplico

fica perto e sem desatino

Traz de volta não desanimas

a história e o prognóstico

e com ela a bela arte do diagnóstico.


Abres a porta da espera

e deixa entrar o meu deambular 

e minha voz embotada, triste e singela.

 

Estou aqui cheio de nó!

Nó na garganta feito ‘globus’,

nó na alma nua e despida 

sem tuas mãos esculpidas

e cheia ‘Ais’ e de dó.

 

Minha barriga distendida 

de flatos, de fato e cheia de ‘só’.

Sem sol, só solidão

e uma angústia terrível vinda do coração.

Não vá embora meu ‘dotô’

Não me deixes na solidão.

 

Espero esperando você 

entrar para assim me ajudar.

Me falar, me auscultar,

Me ouvir,

me sentir,

E só depois me receitar.

 

E minha barriga ainda grande

Cheia de líquidos e clamor 

busca por teu afeto

e tua mão de doutor.

 

Quero que não só ouça minha voz e meu clamor.

Mas que converse de perto, 

faça o certo

Se aprochegue

Chegue perto por favor.

 

Deixe eu respirar

Contar trinta e três

Se inspire e me ausculte

E sinta também meu fetor !


Meu hálito que te ajuda

a diagnosticar com fervor.

A minha mancha da acantose, 

o nódulo e minha fácies de dor.

 

O meu cabelo caído 

Meu olhar desmilinguido 

Minha pele e meu temor

De perder o meu médico

Ah !

Traz de volta meu ‘dotô’.

 

A nobre arte esquecida.

As tristes dores espremidas

A Medicina esvaída

A espera da poesia e da vida

 

A fala sem tom.

O reflexo, o refluxo,

Os cíbalos.

E a dor sem cor

Pálida e entristecida.

 

Por favor salvem a Medicina 

e alivie minha dor.

Coloquem seus jalecos,

E tragam de volta meu dotô!

 

 

Roberio Motta, Estado de Graça do Cariri, Brasil em 16 de fevereiro de 2019.