GRITO
Talvez eu escreva que as folhas tenras,
ainda crianças, balançam ao vento
nas copas verdejantes de suas madres,
sonhando com possíveis viagens
enquanto observam o mundo animal.
Escreva que as nuvens níveas,
qual algodão luminoso ao sol,
brilham irrequietas no céu azul
e se movem na velocidade dos ventos,
indiferentes ao mundo dos homens.
Mas a verdade precisa ser dita,
mesmo que meu alcance seja pouco,
não reverbere nunca na multidão
e meu grito morra baixo e rouco:
é de violência que quero falar.
Há tanta gente sem emprego ou pão,
implorando por esmolas nas ruas,
dormindo sobre o concreto e o chão
de capitais e cidades pequenas,
sendo corpos invisíveis na calçada.
O governo há muito já não dá vazão:
entrega auxílios escassos, mensais,
que mal garantem o triste pão.
O socorro atrasa, falha e míngua,
e nunca chega a quem mais precisa.
Leide Freitas