LEIDE FREITAS

DECLARAÇÃO

DECLARAÇÃO 

 

Eu estava fazendo a minha caminhada,

E mal tinha saído da calçada,

Um rapaz se postou à minha frente

E pediu um momento, por favor.

Achei o moço bem inconsequente:

Não se para uma mulher assim na rua,

A não ser que ela esteja seminua,

Precisando urgente de um cobertor.

 

Como eu não estava adiantada,

Parei para ouvir o sofredor.

Ele começou a dizer, muito sem jeito:

— Eu não sei nem me explicar direito,

Não sei como foi acontecer...

Me desculpe o que agora vou dizer:

Você é uma mulher muito esquisita,

Você não é feia e nem bonita,

Mas estou apaixonado por você!

 

Não sei o que tens, oh, tal mulher,

Que me deixa maluco e me fascina!

Mas com esse teu jeito de menina

E com esse corpinho de mulher,

Podes ter o homem que quiser,

Basta somente estalar os dedos.

 

Depois de falar tudo de uma vez,

O rapaz respirou muito profundo,

Como se desabasse o seu mundo

E não soubesse mais o que fazer.

E ficou me olhando como um cão

Que espera do dono um agrado,

Apertando, aflito, as próprias mãos,

Aguardando o que eu ia responder.

 

Eu, até então, estava calada,

Ouvindo a audácia da cantada.

Achei de mau gosto, uma piada,

E não tinha muito o que dizer...

Mas usando as suas próprias palavras,

Ali mesmo dei meu veredito:

— Você é um rapaz muito esquisito,

Não é feio e também não é bonito,

E não estou apaixonada por você.

 

Se você está mesmo apaixonado

E vai se declarar à sua amada,

Procure a palavra apropriada

E pense bem no que vai dizer!

Pois cantada que nasce do avesso

Já traz a resposta desde o começo

Com o brio e o valor de uma mulher

Ninguém brinca sem pagar o preço.

 

Leide Freitas