DECLARAÇÃO
Eu estava fazendo a minha caminhada,
E mal tinha saído da calçada,
Um rapaz se postou à minha frente
E pediu um momento, por favor.
Achei o moço bem inconsequente:
Não se para uma mulher assim na rua,
A não ser que ela esteja seminua,
Precisando urgente de um cobertor.
Como eu não estava adiantada,
Parei para ouvir o sofredor.
Ele começou a dizer, muito sem jeito:
— Eu não sei nem me explicar direito,
Não sei como foi acontecer...
Me desculpe o que agora vou dizer:
Você é uma mulher muito esquisita,
Você não é feia e nem bonita,
Mas estou apaixonado por você!
Não sei o que tens, oh, tal mulher,
Que me deixa maluco e me fascina!
Mas com esse teu jeito de menina
E com esse corpinho de mulher,
Podes ter o homem que quiser,
Basta somente estalar os dedos.
Depois de falar tudo de uma vez,
O rapaz respirou muito profundo,
Como se desabasse o seu mundo
E não soubesse mais o que fazer.
E ficou me olhando como um cão
Que espera do dono um agrado,
Apertando, aflito, as próprias mãos,
Aguardando o que eu ia responder.
Eu, até então, estava calada,
Ouvindo a audácia da cantada.
Achei de mau gosto, uma piada,
E não tinha muito o que dizer...
Mas usando as suas próprias palavras,
Ali mesmo dei meu veredito:
— Você é um rapaz muito esquisito,
Não é feio e também não é bonito,
E não estou apaixonada por você.
Se você está mesmo apaixonado
E vai se declarar à sua amada,
Procure a palavra apropriada
E pense bem no que vai dizer!
Pois cantada que nasce do avesso
Já traz a resposta desde o começo
Com o brio e o valor de uma mulher
Ninguém brinca sem pagar o preço.
Leide Freitas