ARQUEOLOGIA DE MIM
Vi, na distância do tempo, se perder,
desfazer-se uma imagem humana.
Meus olhos não conseguiam fixar
a exata nitidez do seu contorno;
Era apenas um rastro indefinido.
Uma presença suspensa no vácuo,
que caminhava sem rumo e sem norte,
estranha ao próprio chão que pisava,
envolta em névoa espessa e fria
aquela silhueta movia-se devagar.
Sussurrava segredos ao Zéfiro,
mas não ouvi suas palavras precisas;
apenas decifrei o peso em meu ser.
Era uma jovem andarilha, sem pátria,
que buscava uma fresta de fuga.
Vivia presa no desenho oscilante
de um labirinto feito de espelhos.
Tantas entradas e falsos becos
tornavam os seus dias extenuantes,
um eterno retorno ao ponto de partida.
Foi quando a névoa de súbito cedeu:
reconheci a cadência daquele andar,
o tom da voz que insistia em ecoar,
o jeito exato de agitar os braços.
A estranha refletida no vácuo, era eu.
Era um pedaço da minha história,
parte da essência esquecida
nos corredores frios do inverno;
Alguém que não sabia voltar para casa,
estava exilada na própria ausência.
Recolhi meus fragmentos dispersos,
rompi os muros daquela penumbra,
emergi inteira e absoluta para a vida.
banhada pela lucidez da luz solar,
a alma, enfim, reaprendeu a respirar.
Leide Freitas