Catita Sound

Pássaros

Disseram-me que pássaros não cantam quando presos. É justo que eu cante, que eu faça gargarejo quando a melodia me invadir as cordas bambas. É certo que eu grito todos os dias, mas pássaro só sabe cantar. E quem ouve, pensa que me cativei com o cativeiro. Chega de metáforas banais, porque o português poético nunca fora meu camarada. O que quero dizer é que a fala melancólica transformou-se em rima... decorada, em arte copiada. O que quero dizer é que sou pássaro nascido e criado em grito, em saudade dos ventos que uivam como lobos famintos pelas vidas penosas atrás das grades escondidas por tantos outros lugares. Não faz muito tempo, mas qualquer tempo para mim é muito. Na pressa de sorrir, engoli o Sol e derreti em meu ser a ânsia de amanhecer novamente. Virei argila vermelha… E sequei. Sequei com as marcas da gaiola em meu corpo, como cicatrizes de guerra horripilantes. Não orgulho-me de ser um sobrevivente, pois antes eu tivesse ameaçado cantar e fincar raízes no solo ousado de quem dá valor ao ar que não o envenena devagar. Quem dera eu ser mutilado, expelir a dor como a ostra parasita expulsa o grão de areia aperolado. De tão morto e sem utilidade, ficou bonito, valioso, vítima da ganância dos ouvidos mudos aos cantos gritados. Se ao menos me roubassem a dor… Mas argila não vale nada, grito não assusta o silêncio, o eco do coração morto que me compõe as mais belas notas musicais fugitivas da garganta oca. Roubaram-me os pés e trocaram-me por penas que não uso para ter pena de mim mesmo. Uso para murmurias e lamentações entediantes, como cinzas que renasceram das aves. Fênix ao contrário, é o que sou. Artista que não canta, poeta que não chora, voz que não cala. Disseram-me que pássaros não cantam quando presos. Por isso, é certo que grito. Grito em gaiola de papel, e só não canto porque disseram-me que eu não podia cantar.